Coletânea de núcleo carioca discute com sobriedade as ideias do pensador
Espectros de Derrida , organizado por Paulo Cesar Duque-Estrada. Nau Editora / Editora PUC-Rio, 210 páginas, R$ 34
Guilherme Castelo Branco
Ousado e criativo, Jacques Derrida foi também o filósofo francês menos compreendido das últimas décadas. Em muitos casos ele chega mesmo a ser objeto de uma hostilidade injustificada. Na contramão das críticas gratuitas feitas a ele por parcelas conservadoras do mundo intelectual, existe no Rio de Janeiro, há anos, o Núcleo de Estudos em Ética e Desconstrutivismo (NEEDPUC), que aglutina pesquisadores debruçados sobre o pensamento do autor, morto em 2004. “Espectros de Derrida” é uma coletânea do Núcleo, com dois textos de convidados internacionais.
Não é um livro de vanguarda, escrito em tom de manifesto. Pelo contrário: com sobriedade e rigor, os autores procuram esclarecer a obra de Derrida respeitando seus textos, seguindo seus argumentos, refletindo sobre os temas mais caros a ele. É um livro para estudiosos em filosofia, para aqueles que buscam um esclarecimento sério e pausado da obra de um autor que não é, diga-se de passagem, fácil. Por outro lado, apesar da diferença temática entre os capítulos, existe uma notável cumplicidade entre os textos: eles interagem uns com os outros, criam vasos comunicantes, realizam uma sutil conjugação de pensamento.
Interessante também no livro é a estratégia de apresentação dos grandes temas de Derrida a partir de questões singelas como o perdão, o luto, a morte, o contato humano, a amizade. Em cada texto, sob seu tema peculiar, habitam importantes elucidações sobre os grandes temas da filosofia contemporânea, como o estatuto da realidade, da verdade, da subjetividade, do inconsciente, da alteridade, da escritura, na vertente derridiana.
Paulo Cesar Duque-Estrada, organizador da coletânea, sob o difícil tema do perdão (após o holocausto e os genocídios), entende o desconstrutivismo como sendo o pensamento da impossibilidade, que rompe com o caráter totalizante das construções filosóficas tradicionais. Derrida desconfia de todo e qualquer fundamento, de toda regra para o bem pensar, de todo método; o traço do desconstrutivismo, assim, é o estar “entre”, é ser uma passagem, e é exatamente isto que torna possível tanto o relacionamento com o outro quanto com as coisas, inclusive com a alteridade que habita em cada um de nós. O desconstrutivismo é indicado em seu texto como uma filosofia do acontecimento, assumindo o risco de estarmos sempre diante um campo de forças e de tensões, que tem lugar, “mas nunca enquanto tal”, pois o acontecimento é fugaz e se transforma. Impossibilidade e acontecimento forma um par inseparável, lidando constantemente com o perigo, com o perigo de pensar aquilo que provém do impossível e que pensa o impossível. Trata-se daquilo que abre um processo inesgotável de interrogação, de retomada do acontecimento, de permanente abertura às coisas e aos outros.
Numa via análoga, Mónica Cragnolini, ao estudar os nexos entre escritura e morte, traço marcante de Derrida, que publicou muitos livros a partir da morte de seus amigos e entes queridos, escreve sobretudo sobre os nexos impossíveis entre a vida e a morte. Debruçando-se sobre a relação entre pessoas, numa via de análise que tem evidentes marcas portenhas, Mónica afirma que toda relação com o outro é um adeus, que toda vida é uma sobrevida, onde rastros, aqui e acolá, se apresentam e desvanecem.
Ana Maria Continentino, estudando o luto, na verdade ajuda a que compreendamos o indecidível, termo de Derrida que exprime a constante tensão entre as forças postos em jogo no texto freudiano, como a tensão entre prazer e morte, pulsão e princípio, e a que tenhamos elementos para entender a retomada do pensamento freudiano à luz da desconstrução, na verdade um modo de pensar ativo e incansável, que propõe um mais além do mais além. Tal modalidade de otimismo de Derrida faz do luto, por ele pensado como um meio-luto, um indecidível, que aponta para o processo sem fim da tentativa de apropriação do outro, que institui uma abertura sempre inacabada no relacionamento entre as alteridades.
Já Carla Rodrigues, ao analisar a inversão das categorias de análise feitas por Derrida, mostra como se desvelam novos campos para a discussão da linguagem. Ao deixar de lado a clássica referência ao signo, ao significante e ao significado, Derrida, segundo ela, aponta para o rebatimento dos significantes uns sobre os outros, a partir de onde o sentido vem sempre como efeito. O sentido, assim, advém como rastro de presenças que não estão mais lá.
Rafael Haddock-Lobo, ao analisar as interferências entre as éticas de Martin Buber e Derrida, acaba por esclarecer sobre o caráter inovador da ética dialógica do desconstrutivismo, que provém de uma radical estranheza para com o outro, e onde a vida é um “rastro de rastros entre muitos rastros de rastros”.
O último capítulo do livro, cadenciado à portuguesa, fala sobre a relação entre Lévinas e Derrida, uma amizade intelectual e pessoal bastante invulgar e bizarra, e que, segundo a autora, poderia ser explicada à luz do pensamento de ambos. Fernanda Bernardo realiza uma boa incursão na obra dos dois filósofos no que diz respeito ao tema do contato e da amizade.
Trata-se, enfim, de um livro valioso, rigoroso e elegante.
07/03/2009
GUILHERME CASTELO BRANCO coordena o Laboratório de Filosofia Contemporânea da UFRJ/IFCS.